Texto completo. Francisco recorda os missionários beatificados ontem, comenta a Cop21 e o 50º aniversário da reconciliação entre católicos e ortodoxos
Neste domingo (6), o Papa Francisco rezou o Angelus
com os fiéis e peregrinos reunidos na Praça São Pedro, no Vaticano.
Apresentamos as palavras pronunciadas pelo Pontífice:
Queridos irmãos e irmãs, bom dia!
Neste II Domingo de Advento a liturgia nos insere na escola de João
Batista que pregava um batismo de conversão para o perdão dos pecados
(Lc 3,3). E podemos nos perguntar: Por que devemos nos converter? A
conversão diz respeito a quem era ateu e passou a crer, quem era pecador
e se tornou justo, mas nós não precisamos, pois já somos cristãos.
Então, estamos bem. E isso não é verdade. Pensando assim, não percebemos
que devemos nos converter desta presunção - de que somos cristãos,
todos bons, que estamos bem – que devemos nos converter: do pressuposto
de que, no cômputo geral, está bom assim e não precisamos de qualquer
conversão. Mas devemos nos questionar: É verdade que nas várias
situações e circunstâncias da vida temos em nós os mesmos sentimentos de
Jesus? É verdade que ouvimos como Jesus se sente? Por exemplo, quando
sofremos alguma injustiça ou alguma afronta, conseguimos reagir sem
ressentimento e perdoar de coração quem nos pede desculpa? Quanto é
difícil é perdoar! Quanto é difícil! "Mas você me paga!”: esta palavra
vem de dentro! Quando somos chamados a partilhar alegrias e tristezas,
sabemos sinceramente chorar com os que choram e alegrar-nos com os que
se alegra? Quando precisamos exprimir a nossa fé, sabemos fazê-lo com
coragem e simplicidade, sem nos envergonhar do evangelho? E assim,
podemos nos perguntar tantas coisas. Nós não estamos prontos, devemos
nos converter sempre, ter os sentimentos que Jesus tinha.
A voz de João Batista grita ainda nos desertos atuais da humanidade,
que são - quais são os desertos de hoje? - As mentes fechadas e os
corações endurecidos, e nos leva a nos perguntar se efetivamente estamos
percorrendo o caminho justo, vivendo uma vida segundo o Evangelho.
Hoje, como naquele tempo, ele nos adverte com as palavras do Profeta
Isaías: ‘Preparai o caminho do Senhor’ (V. 4). É um premente convite a
abrir o coração e acolher a salvação que Deus nos oferece
incessantemente, quase obstinadamente, porque quer que todos sejamos
livres da escravidão do pecado. O texto do profeta dilata aquela voz,
preanunciando que "todo homem verá a salvação de Deus" (v. 6). A
salvação é oferecida a todas as pessoas, a todos os povos, sem excluir
ninguém, a cada um de nós. Nenhum de nós pode dizer: Eu sou santo, sou
perfeito, já estou salvo. Devemos sempre receber esta oferta da
salvação. É para isso o Ano da Misericórdia: para caminhar nesta estrada
da salvação, estrada que Jesus nos ensinou. Deus quer que todos os
homens sejam salvos por meio de Jesus Cristo, único mediador (cf. 1 Tim
2, 4-6).
Portanto, cada um de nós é chamado a anunciar Jesus àqueles que ainda
não o conhecem. Mas isso não é fazer proselitismo. É abrir uma porta.
"Ai de mim se eu não anunciar o Evangelho!" (1 Cor 09,16), dizia São
Paulo. Se o Senhor Jesus mudou a nossa vida, e muda sempre que
recorremos a Ele, como não sentir a paixão de torna-lo conhecido a todos
os que encontramos no trabalho, na escola, no bairro, no hospital, nos
lugares de encontro? Se olhamos ao nosso redor, vemos pessoas que estão
dispostas a começar ou a recomeçar um caminho de fé, se encontram
cristãos apaixonados por Jesus. Não devíamos e não podíamos ser nós tais
cristãos? Deixo a pergunta: "Eu realmente sou apaixonado por Jesus?
Estou convencido de que Jesus me oferece e me dá a salvação?". Se sou
apaixonado devo anunciá-lo, mas temos de ser corajosos e abater as
montanhas do orgulho e da rivalidade, preencher os sulcos cavados pela
indiferença e apatia, endireitar os caminhos da nossa preguiça e dos
nossos compromissos.
Que a Virgem Maria, que é Mãe e sabe como fazê-lo, nos ajude a
quebrar as barreiras e os obstáculos que impedem a nossa conversão, o
nosso caminho rumo ao Senhor. Só Ele, somente Jesus pode realizar todas
as esperanças do ser humano!
Depois do Angelus
Queridos irmãos e irmãs,
Eu acompanho com muita atenção os trabalhos da Conferência sobre as
Alterações Climáticas que se realiza em Paris, e recordo uma pergunta
que fiz na Encíclica ‘Laudato si’: Que tipo de mundo queremos deixar a
quem vai nos suceder, às crianças que estão crescendo? Para o bem da
casa comum, de todos nós e das gerações futuras, em Paris, todos os
esforços devem ser destinados a aliviar os impactos das mudanças
climáticas e, ao mesmo tempo, combater a pobreza e fazer florescer a
dignidade humana. As duas escolhas caminham juntas: deter as mudanças
climáticas e combater a pobreza para que floresça a dignidade humana.
Rezemos para que o Espírito Santo ilumine todos os que são chamados a
tomar decisões tão importantes e que Deus lhes dê a coragem de manter
como critério de escolha o bem de toda a família humana.
Amanhã celebra-se o quinquagésimo aniversário de um evento memorável
entre católicos e ortodoxos. Em 7 de dezembro de 1965, vigília da
conclusão do Concílio Vaticano II, com a Declaração comum do Papa Paulo
VI e do Patriarca Ecumênico Atenágoras, foram apagadas da memória as
sentenças de excomunhão entre as Igrejas de Roma e Constantinopla em
1054. É realmente providencial que aquele gesto histórico de
reconciliação, que criou as condições para um novo diálogo entre
ortodoxos e católicos no amor e na verdade, seja lembrado no início do
Jubileu da Misericórdia. Não há caminho autêntico rumo à unidade sem
pedir perdão a Deus e entre nós pelo pecado da divisão. Recordamos em
nossa oração o querido Patriarca Ecumênico Bartolomeu e os outros Chefes
das Igrejas Ortodoxas, e peçamos ao Senhor para que as relações entre
católicos e ortodoxos sejam sempre inspiradas no amor fraterno.
Ontem, em Chimbote (Peru), foram beatificados Michael Tomaszek e
Zbigniew Strzalkowski, franciscanos conventuais, e Alessandro Dordi,
sacerdote fidei donum, mortos por ódio à fé em 1991. A
fidelidade desses mártires em seguir Jesus dê força a todos nós, mas
sobretudo aos cristãos perseguidos em várias partes do mundo, de
testemunhar o Evangelho com coragem.
Saúdo a todos os peregrinos que vieram da Itália e de outros países –
há várias bandeiras aqui - em particular o coro litúrgico de Milherós
de Poiares e os fiéis de Casal de Cambra, Portugal. Saúdo os
participantes da conferência do Movimento de compromisso educativo da
Ação Católica, os fiéis de Biella, Milão, Cusano Milanino, Netuno, Rocca
di Papa e Foggia; os crismandos de Roncone e Settimello, a banda de
Calangianus e o Coral de Taio.
Desejo a todos um bom domingo e uma boa preparação para o início do
Ano da Misericórdia. Por favor, não se esqueçam de rezar por mim. Bom
almoço e até logo!
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